CARTA AOS NOSSOS LEGISLADORES

Caros senhores,

Sou professora e há 18 (dezoito) anos tenho realizado diversos trabalhos na área educacional, passando pela docência em Educação Infantil ao Ensino Superior. Já exerci cargos de supervisão, coordenação, direção e secretária de escola. Foram tantos anos e esforços dedicados a educação que cheguei a alguns pensamentos conclusórios. Percebi que a educação, não só localmente, mas nacionalmente, não tem recebido a atenção necessária principalmente por aqueles que escolhemos, entre tantos, para nos representar nas instituições políticas controladas pelo governo, como também na vontade de se elaborar políticas públicas que viabilizem um ambiente educativo propício para o desenvolvimento da aprendizagem do aluno e principalmente um estímulo maior à carreira docente. A cada eleição que se passa, nós professores, depositamos nossas esperanças nos legisladores que escolhemos. Esperamos que estes possam ouvir nossas vozes clamando por ajuda, pois, muitas vezes, sentimo-nos esquecidos pelo Estado. Fazemos manifestações, greves, mobilizamos a comunidade, pedimos ajuda aos gestores de escolas, secretários de educação e ao executivo, e, ao final, percebemos que todos os nossos anseios e problemas levantados parecem que não existem ou não tem tanta importância para a sociedade, principalmente a nossa que muitas vezes está tão ocupada com a economia e com a política que não percebe que sem educação não podemos educar esta mesma sociedade para ter uma consciência e criticidade política assim como dirigir suas micro e pequenas empresas de confecções.

Gostaria de convidá-los para passar alguns dias nas escolas, não só públicas, mas também privadas de nossa cidade para tentar entender os problemas que cercam a educação e a limitam a um exercício reprodutor de uma sociedade desigual e desumana que tem valorizado mais o ter do que o ser.

Enquanto vocês não se disponibilizam a sentir na pele o que passamos nas escolas, posso adiantar alguns destes problemas. Desta forma, vocês podem se inteirar (apesar de ter a certeza de que todos já sabem das coisas que irei anunciar e denunciar) das dificuldades as quais nossas escolas estão passando e quem sabe podem viabilizar o quanto antes, projetos de lei, ações, propostas, ou o que seja para sanar boa parte dessas aberrações intrínsecas nas escolas.

Escolha da equipe docente e gestora. Este tem sido um dos principais problemas que envolvem a educação escolar, pois a formação e a competência para gerir as escolas e as salas de aula têm dado lugar as indicações políticas e partidárias e a mão-de-obra barata. Em uma pesquisa feita recentemente aqui na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, identificou-se que 54,5% dos gestores que atualmente gerem as escolas públicas municipais, não estão habilitados legalmente para exercer tal função. Mas o caso mais preocupante, na minha visão, ainda são as indicações. Estas, solidificam ainda mais as práticas autoritárias e anti-democráticas que vimos ser exercidas por alguns secretários de educação e gestores escolares. Vivemos em uma democracia representativa. Nada mais justo do que a escolha para estes cargos ser feita democraticamente pelos professores e comunidade local! Nas escolas particulares ainda é comum encontrar professores e assistentes de Educação Infantil e Ensino Fundamental I sem a formação mínima exigida por lei, que é o magistério COMPLETO ou no caso da inexistência deste, o curso de Pedagogia COMPLETO. Essa segunda constatação foi feita por mim enquanto mãe em busca de uma escola para meu filho e digo que não são só professores sem formação adequada, mas também coordenadores de escolas particulares. Quanto à gestão de algumas destas escolas, vê-se pessoas que estão à frente e que se auto-intitulam gestores sem estarem habilitados para tal, estes escolhem alguém habilitado para poder assinar documentos de transferências e históricos. Volto a enfatizar que não são em todas as escolas particulares, mas EM ALGUMAS, e que é de competência da Secretaria de Educação do Estado e do Município acompanhar o processo de legalização e funcionamento destas instituições, conforme Lei nº 9.394/96. O exercício ilegal da profissão do professor é mais comum em escolas privadas do que nas públicas. É preciso uma intervenção imediata para que nossos alunos possam, no mínimo, ser assistidos por um profissional formado na área.

Valorização do magistério – A carreira docente vem sendo desvalorizada a cada dia. Afirmo isto, pois vimos que dos poucos aumentos que tivemos, junto com eles são acrescidas mais e mais responsabilidades além do aumento da carga horária de trabalho. Para termos uma renda mais digna, temos que nos desdobrar em dois ou mais turnos de trabalhos. Hoje o MEC, através do Fundeb, estabelece o piso nacional do magistério no valor de R$ 1.451,00. Estudamos tanto, fazemos muitos cursos, investimos em nossa carreira e ao final chegamos a questionar se todos os investimentos terão retorno após constatarmos que o governo estabelece um valor tão pequeno pra quem se desdobra nas escolas públicas e privadas, com todos seus problemas internos e estruturais. Escutei certa vez um professor de curso de doutorado dizer: “quando o governo pagar um valor justo aos professores, ele terá mestres e doutores lecionando nas escolas de ensino fundamental e médio.” Vimos neste discurso que dentro da própria educação pública há desigualdades salariais, imagina se compararmos nosso salário a outras áreas de atuação como a dos senhores frente à Câmara de Vereadores. E não falo só do salário, mas das condições e jornada de trabalho. Em algumas escolas privadas os professores têm um salário que não chega nem perto do piso nacional. Nos indigna o fato de sabermos que a nossa intervenção pedagógica para educar os jovens no período de escolarização, não tem o valor necessário para a sociedade, pois sem esta intervenção não teríamos médicos, juízes, prefeitos, vereadores, senadores, deputados, psicólogos, etc. Todos já passaram pelas mãos de um professor e este professor, em relação a tantas outras profissões, tem o seu salário cada vez mais reduzido se comparado a outras carreiras.

Condições dignas de trabalho. As nossas escolas pedem socorro! Salas de aula lotadas, estrutura física decadente, falta de material pedagógico e merenda inapropriada para as crianças. Nessas condições estamos adoecendo. Sim! Digo adoecendo por que não conseguimos alcançar a todos nossos alunos com salas que eu mesma já vi chegar a 40 alunos por turma. Não tem didática, metodologia, teoria que dê conta de tantos alunos ao mesmo tempo, principalmente quando estes ainda não alcançaram a maturidade para entender tudo que está acontecendo e o porquê deles serem obrigados a estar em salas super lotadas. As escolas mais parecem presídios! Talvez esta palavra seja forte, mas vejam as estruturas das escolas e suas semelhanças com os presídios: muros altos, portões, cadeados, corredores imensos, sem ventilação adequada, salas escuras e pra completar ainda existe a cultura de se pintar a escola e as salas com as cores dos partidos. Uma simples consulta a periódicos de pesquisas educacionais demonstraria que a escolha das cores para um ambiente de sala de aula pode interferir na aprendizagem da criança. Não existe nas escolas um espaço adequado destinado à recreação, que é essencial para o desenvolvimento físico e motor da criança. Um jardim, um espaço verde, é muito difícil encontrar. Os banheiros não dispõem de uma higienização adequada, às vezes falta papel higiênico e sabão para se lavar as mãos e ainda temos sérios problemas com o material de limpeza. Já presenciei, e eu também já fiz isso, de ver diretores de escolas municipais tendo que tirar do seu salário pra poder comprar materiais que são de responsabilidade da prefeitura providenciar. Para as crianças que estão em fase de Educação Infantil não há banheiros adaptados e dentro das salas. E mais, se o professor quer fazer um belo projeto pedagógico ele terá sorte em conseguir o material necessário para fazê-lo, ou, do contrário, tem a opção de também ter que tirar de seu salário para ver seu projeto funcionar. No próprio cotidiano falta material como lápis de quadro, folhas, pincéis, tintas, etc. E quanto à merenda, convido os senhores para comer um belo prato de angu, bem quentinho, às dez horas da manhã ou se preferir às três horas da tarde! Temos também sopa nos horários sugeridos! E antes ainda tinha o mungunzá, mas este parece ter sido retirado do cardápio. Deixo claro que não sou contra estes alimentos que inclusive têm seus nutrientes. O problema é que os acho inadequados para o horário e para o clima que temos. Os alunos ficam pingando de suor após ingerir estes alimentos e vão para o recreio... Imaginem como deve ser a volta deles! Por que não consultar um nutricionista para se fazer um cardápio adequado para nossas crianças, condizente ao nosso clima, com a introdução de frutas, sucos e verduras da época. Cardápios que estimulassem nossas crianças a ter um hábito alimentar saudável com coisas encontradas na própria região. Diria: usar a criatividade para se fazer uma merenda saborosa e nutritiva!

Estes problemas são visíveis, além destes temos problemas relacionados ao currículo, a formação continuada para professores e especialmente para diretores e equipe técnica e pedagógica das escolas, acesso as tecnologias da educação, suporte necessário ao atendimento da pessoa com deficiência nas escolas, desvio do dinheiro destinado à educação, participação da família nas atividades escolares, alunos desmotivados, violência na escola, políticas públicas ineficazes na prática, investimento na educação, água potável, apropriação do sistema de ciclos de aprendizagem, etc. São tantos os problemas que levaria um bom tempo falando deles para vocês.

Mas, querem saber como tudo pode melhorar: escutem os professores e a comunidade escolar e local. Ninguém melhor do que eles para expressar suas angústias em relação à educação de nossa cidade. Deem a eles a oportunidade de falar o que sentem e sugerir o que pode ser feito neste momento para sanar alguns dos problemas apontados anteriormente de acordo com a realidade em que vivem e trabalham. Somos o povo que os elegeu e que os colocou num cargo representativo. Como representar o povo sem ouvi-los? Lembre-se também que vocês vieram do povo e que ocupam este cargo por um período de tempo e tudo que aí fizerem irá servir a vós e as suas famílias que também precisam ou irão precisar do serviço público. Encontrei no site do Brasil Escola as principais atribuições que os vereadores devem ter. São elas: “discutir as questões locais e fiscalizar o ato do Executivo Municipal (Prefeito) com relação à administração e gastos do orçamento. Eles devem trabalhar em função da melhoria da qualidade de vida da população, elaborando leis, recebendo o povo, atendendo às reivindicações, desempenhando a função de mediador entre os habitantes e o prefeito.”

A partir desta premissa, agradeceria profundamente se vocês pudessem levar para discussão na câmara de vereadores as minhas reivindicações quanto à educação, fazendo a mediação destas com o prefeito eleito para que ele também possa se empenhar nesta função de construir uma educação verdadeiramente de qualidade! Gostaria de poder discutir mais sobre o tema, são muitas as limitações da educação, mas pouco tempo nos sobra para promover estes espaços de diálogo com os senhores. Proponho a promoção de espaços discursivos na câmara, recebendo e escutando o povo que os elegeu.

Gostaria de ver este debate sendo ampliado, com as mais diversas visões e posições de outros educadores. Esse é apenas um texto introdutório que dá margem para diversas reflexões e críticas sobre o contexto atual em que a nossa educação se encontra. Peço a colaboração de outros professores para melhorar este texto e ampliar esta pequena fala de alguém que gosta de compartilhar seus pensamentos e que acredita que através do diálogo podemos construir espaços democráticos que podem servir de mediação entre aquilo que idealizamos e aquilo que temos de concreto no mundo real. A materialização do mundo das ideias pode se tornar mais eficaz se antes, coletivamente, levarmos nossos posicionamentos políticos a público com o intuito de buscarmos meios que favoreçam uma convivência em sociedade mais justa e menos desigual.

Santa Cruz do Capibaribe, dezembro de 2012.
Débora Quetti Marques de Souza - Pedagoga, Especialista em Educação Infantil, Gestão Escolar e Psicopedagogia. Mestre em Educação pela UFPE. Atualmente está se dedicando ao Doutorado em Educação também na UFPE.

Por Emanoel Glicério | Marcadores:

11 comentários:

  1. Anônimo disse...:

    Essa ai ta querendo algum cargo de diretora ou supervisora, no minimo....

  1. Débora Quetti disse...:

    Emanoel, agradeço profundamente por publicar esta carta. Isso mostra o profissional que você é. Aproveito para informar ao "Anônimo" não faz parte dos meus planos exercer cargo público pois já tive vários. Prefiro mesmo minha sala de aula,nos cursos de graduação e pós-graduação. Nestes momentos tenho a oportunidade de debater tudo isso que coloquei com meus alunos. Termino minha aula e fico tranquila pra cuidar de mim e de minha família.Continuarei lutando pela valorização do magistério!

  1. Anônimo disse...:

    Isso é papo de quem não tem um cargo na admistração, coisa de oposicionista, ou as pessoas já esqueceram dos tempos que o PT, PC, Pc do B, PDT, PSB, PTB, PV e outros PS radicais da vida, foram muitos anos mostrando todo isso que essa professora escreveu. Se der um cargo comicionado bem remunerado a ela, aceita tudo e cala-se até perde, virar oposição e voltar a criticar de novo.

    Essa história eu já conheço por dentro e por fora e com experiência comprovada, essa al ai quer reza.

  1. Anônimo disse...:

    Falacam em quatro nomes ou mais para a Secretaria de Educação, a escolhida, foi uma das que mais fez criticas ao atual governo, pode esperar, vai aceitar todo o jogo dos Vieiras e se não comer no meso prato, vai ser trocada imediatamente.

    Os homens gastaram uma fortuna pra chegar ao poder e onde mais podem fazer suas defesas, está bem claro, tem botar alguém sem peso político que seja manipulada e aceite tudo como eles querem.

  1. Anônimo disse...:

    ESSA DONA PASSOU O GOVERNO DE ZÉ AUGUSTO E O DE TOINHO MAMANDO NA PREFEITURA, ERA O BRAÇO DIREITO DE SOCORRO MAIA, USADA PARA NAS REUNIÕES APROVAR O QUE OS MAIAS QUERIAM. NUNCA ABRIU A BOCA PARA OPINAR EM NADA, AGORA QUE O BARCO AFUNDOU VEM COM ESSE DISCURSO NOJENTO DE QUE PRECISA MUDAR ISSO E AQUILO, PORQUE NÃO USOU ESSE CONHECIMENTO TODO PRA FAZER ALGUMA COISA ANTES. AGORA FOI QUE PERCEBEU QUE A MERENDA NÃO PRESTA, QUE NÃO TEM UMA DIDATICA DE ENSINO, AS SALAS SÃO SUPERLOTADAS. TU QUERES UM EMPREGO? PEDE LOGO, MAS NÃO COSPE NO PRATO QUE COMESSE NÃO, Ô AMARELA!!!

  1. Anônimo disse...:

    Nunca li um texto tão bem elaborado, só podia ser você. Respondendo a questão do anônimo sem informação, ela não quer cargo não mais hoje em Santa Cruz é uma pena a cidade ter uma doutora em educação infantil e não ser aproveitada. Você tem capacidade de formação e pratica.

  1. Anônimo disse...:

    Yá não abestalhado!!!

  1. Anônimo disse...:

    mas é muita cara de pau dessa amarela, vir agora querer exigir alguma coisa. quando estava na sombra de socorro maia, sendo uma das que se beneficiavam das beneses do rei, não estava nem ai pra professores ou alunos, agora que vai voltar pra sala de aula, quer exigir condiç~eos dignas de trabalho, escolha de diretores pelos alunos e pais. no imperio de socorro não era assim e voce nunca se preocupou com isso. agora vem toda comovida com a situação que os alunos estão. porque voce nunca se posicionou antes contra os desmandos existentes dentro das escolas. não tenho lembrança de voce na sabatina dos professores para questionar isso do "rei maia" agora que voce quer condições dignas de trabalho, politicagem não é certo, mas no seu caso, era pra edson colocar voce pra ir dar aula em cacimba de baixo, e era pra ir a pé. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK.

  1. Anônimo disse...:

    muito competente essa Sra. merecia um cargo na educação, quem sabe até de secretária, mas, infelizmente é muito ligada ao grupo maia e a socorro atraso maia.

  1. Anônimo disse...:

    Gente, deixem a política de lado os secretários já foram escolhidos, independente da vontade ou não de ter um cargo, uma sombra ou seja lá o que for isso é questão pra discussão sim. Nas escolas públicas a precariedade já é muito grande e nas escolas particulares se fala tanto em futuros e fazer gerações, que podiam começar elas próprias a selecionar somente gestores habilitados.
    Espero que quem ler esse texto, se preocupe em saber como anda a escola e o grau de formação dos gestores dos seus filhos.
    E como é de competência da Secretaria de Educação do Estado e do Município acompanhar esse processo de legalização conforme Lei nº 9.394/96 fica o alerta a nova Secretária Clécia Lira.
    E que ela tenha sucesso na sua mais nova missão. Um abraço a todos, e que 2013 nos traga dias melhores.

  1. Anônimo disse...:

    E muita demagogia desse povo, o amigos do poder estão por ai....